Auto-Explicação
I
Explicar-me é desensibilizar-me
Tornar-me conceito do entendimento
É tornar-me figura morta no tempo
Tornar-me intuição sensível
É tornar-me intensidade invisível
Fato é que sei que não posso existir enquanto penso
Se penso que existo é porque deixei-me para tornar-me
conceito
No meu pensamento só existe conceito
Quando estou no meu pensamento estou fora de mim
Para tornar a mim mesmo preciso deixar de tentar
entender-me
Só me compreendo quando não me sei
Não sou feito de essências imutáveis nem de
materialidades voláteis
Sou música composta a milênios
Contenho em mim a Terra e o espírito imaterial
Nunca houve separação entre o “divino” e o “terreno”,
senão na cabeça dos homens
O pássaro louva a Deus ao mesmo tempo que atrai a fêmea
para acasalar
O seu canto é um só, é o mesmo canto
É a mesma voz que diz “terra” e “céu” quando não
existe palavra
A palavra corrompe a Criação
A palavra escrita é o que traz a desmaterialidade para
deus
E depois, falando-a, é que se tenta materializá-lo de
volta
A música nunca rompeu com deus
Já que não pode haver música abstrata
Ela é a única forma que envolve tudo que foi dividido
pela palavra:
a natureza - deus - o homem
a - e - i - o -u
Aí está tudo:
A claridade e a escuridão
O agudo e o grave
O princípio e o fim
Tudo nunca existiu antes da palavra
Antes da palavra a música era todas as coisas
O homem fragmenta o que deus criou para a música unir
o que a palavra separou
II
Só existe uma maneira de criar:
A criação se inicia pelo fim, pelo nada
Quando não existe nada, o nada e o tudo são a mesma
coisa
Nada é tudo que existe
Tudo que existe é nada
A única maneira de criar é revirar o nada pelo avesso,
e ver que o tudo já estava lá
Não se cria nada, tudo já está criado no avesso do
nada
Pois o fim último de toda criação é o nada primeiro,
onde ela no avesso já estava contida
A maior de todas as criações seria criar o nada então
Mas ela já está aí desde sempre
Pertence a criação absoluta e não a criação efêmera
A criação efêmera no entanto, é a condição para
que exista a criação absoluta, e não o contrário
O automóvel é a outra face de
Deus.